
“As Desvirtuosas” aborda política, gênero e o desejo feminino na terceira idade

Encontro reúne cineastas, artistas e africanos residentes em Salvador no Estúdio África
A ação aconteceu de forma gratuita e contou com a presença da cineasta burkinabé Chloé Aïcha Boro
Por Kauane Souza

Foto: Andresa Andrade
“Documentário e ficção são lados da mesma moeda. É tudo cinema”. disse Chloé Aïcha Boro, cineasta burkinabé que ministrou a masterclass “Do Documentário à Ficção: Uma Experiência de Escrita em Família” no último sábado (19), na Aliança Francesa Salvador, na Barra. Ao lado de seu filho, Galiam Enzo Leterrier, Aïcha compartilhou com o público sobre seus processos de criação, memórias e experiências que atravessaram seu trabalho, além da relação entre documentário e ficção. A conversa contou coma mediação da cineasta baiana Ceci Alves.
Presente no público, a cineasta Lindiwe Aguiar destacou o efeito de identificação gerado pelo encontro com a trajetória de Chloé Aïcha Boro: “Eu acho que o mais importante do encontro de hoje foi o encontro com as semelhanças. Não é porque ela é uma cineasta de outro país, que a experiência vai ser diferente. Como cineasta negra, a gente às vezes se sente um pouco deslocado, um pouco fora do lugar. Aqui, ela nos coloca num lugar de muito conforto profissional. De que as coisas podem dar certo apesar dos empecilhos”.
O encontro revisitou a trajetória da diretora, reconhecida por uma obra documental marcada pela atenção aos conflitos sociais, familiares e políticos de Burkina Faso. Antes de chegar à ficção, Chloé Aïcha Boro realizou os documentários “France-Aurevoir, le nouveau commerce triangulaire”, “Le Loup d’or de Balolé” e “Al Djanat, le paradis originel”, trabalhos que investigam relações de trabalho, memória e tradição a partir de situações concretas e personagens atravessados por tensões históricas.

Foto: Andresa Andrade
Na masterclass, a cineasta partiu desse percurso no documentário para discutir a realização de “As Desvirtuosas”, seu primeiro longa-metragem de ficção, exibido na programação da mostra. Inspirado em acontecimentos da história familiar da diretora, o filme acompanha Natie, uma adolescente que descobre que a avó foi obrigada a se casar com um homem que não amava. A partir dessa revelação, desenvolve-se uma reflexão sobre liberdade feminina, desejo, família e convenções sociais em um Burkina Faso atravessado por conflitos contemporâneos.
Sobre a principal diferença entre os dois gêneros, Aïcha afirma: “Documentário é dirigir o real, ver o sublime dentro das coisas banais. Na ficção a gente tem mais espaço pra definir estética; no documentário é o real que conduz. O documentário e a ficção são irmãs. Ambos são histórias que precisam ser contadas, escutadas e vistas. É uma forma de ver o outro e se ver”.
Ser mulher no cinema
Presente na masterclass, a cineasta Jamile Guedes comentou como a trajetória de Boro dialoga com o lugar das mulheres dentro do cinema: “Ela nos traz aqui uma perspectiva do nosso posicionamento enquanto mulheres também dentro do cinema, e tudo que a gente pode transformar como força para transformar nossas narrativas em histórias ainda mais potentes, principalmente dentro do cinema independente, que é onde a nossa resistência é muito desafiada dentro do nosso país”.

Foto: Andresa Andrade
Para Chloé Aïcha Boro, fazer cinema sendo mulher passa também por envolver os filhos nesse processo, transformando a criação em um exercício coletivo e familiar. A conversa passou pelo processo de escrita de roteiro, que muitas vezes é desenvolvido em diálogo com a própria família da diretora. Como Galiam Enzo Leterrier, filho da cineasta, que colaborou com a elaboração da história de “As Desvirtuosas”.
“Os meus filhos foram envolvidos por mim no cinema. Eles tiveram que entender o que tomava tanto o meu tempo e começaram a querer participar. E daí vem a criação em família. Meus filhos são meus soldadinhos. Gosto de saber a opinião deles, porque crianças são as mais sinceras e sabem dizer quando algo não está bom. Eles me dizem o que não funciona”.
A atividade integra a programação da Mostra de Cinemas Africanos em Salvador, que acontece até o dia 23 de setembro em diversos espaços da cidade.



