
“As Desvirtuosas” aborda política, gênero e o desejo feminino na terceira idade

Mostra de Cinemas Africanos realiza masterclass sobre documentário e ficção na Aliança Francesa Salvador
Encontro virtual reuniu participantes de diferentes regiões para discutir as formas como o cinema africano rompe com modelos ocidentais.
Por: Anna Luiza Santos

O último sábado (19) foi dia de um encontro especial para quem estuda e quer se aprofundar em um conceito fundamental da produção audiovisual do continente africano: a crioulização das telas. A formação, ministrada pela pesquisadora Jusciele Oliveira, integrou a programação da 9ª Mostra de Cinemas Africanos em Salvador e reuniu participantes de diferentes regiões do Brasil e também de outros países, como Angola.
Realizada de forma on-line e gratuita, a atividade partiu das reflexões do escritor e filósofo martinicano Édouard Glissant para discutir como cineastas africanos combinam gêneros, referências culturais e linguísticas na construção de suas obras.
A proposta também buscou ampliar o olhar para além da leitura que costuma associar essas cinematografias prioritariamente à política e à história. Embora essa perspectiva seja fundamental para compreender parte importante dessa produção, ela nem sempre contempla a variedade de linguagens e experiências presentes no cinema do continente. Nesse universo, o entretenimento ocupa um lugar importante: comédias, musicais, filmes de terror e ficção científica mobilizam humor, fantasia, suspense e imaginação para estabelecer diferentes formas de relação com o público. Ao explorar esses gêneros, os realizadores reelaboram referências culturais e convenções narrativas, aproximando suas obras de situações cotidianas e, ao mesmo tempo, abrindo espaço para outros modos de imaginar e contar histórias.
Para Jusciele, conhecer esse processo também é uma forma de romper com a ideia de que a produção audiovisual africana apenas repete modelos ocidentais de fazer cinema.
“É importante para que vocês vejam que os cinemas africanos não estão apenas reproduzindo fórmulas de Hollywood ou da Europa. A África é um continente que produz conhecimento orgânico, sem precisar copiar o Ocidente e suas referências.”
Ao longo da formação, os participantes conheceram como essa mistura de influências pode criar novas possibilidades de representação, atravessando gêneros, linguagens e diferentes repertórios. Nesse movimento, a crioulização surge como uma forma de colocar a pluralidade em contato e abrir caminho para novas expressões.
“Toda produção é uma produção política e intencionada. E esse processo de crioulização resulta em outras possibilidades e interpretações. Ela não apaga as diferenças, mas as transforma em um corpo vivo que nunca quis caber nas caixinhas classificatórias da cinematografia”, destacou.



