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Filme de Burkina Faso “fala às pessoas que têm o direito de existir”, diz diretora Chloé Aïsha Boro em debate após exibição em Salvador
Por Yan Inácio

“Não é que eu não queira, é porque eu não posso”. A frase da avó de sua filha sobre viver novamente um amor antigo na terceira idade foi um dos pontos de partida da cineasta Chloé Aïcha Boro, de Burkina Faso, para roteirizar e dirigir o filme “As Desvirtuosas” (Les Invertueuses), exibido na noite desta sexta-feira (18), na sala Walter da Silveira, durante o segundo dia da Mostra de Cinemas Africanos 2026, em Salvador.
Sob o pano de fundo do avanço de grupos radicais islâmicos no território burquinense, a trama de “As Desvirtuosas” acompanha a vida de Natie (Larabie Dimzoure), jovem que tenta ajudar sua avó Awa (Hafissata Coulibaly) a reencontrar um amor da juventude enquanto tenta conhecer a si mesma em meio a uma família tradicional na conservadora sociedade de Burkina Faso.

“Eu sabia que, ao propor esse olhar, seria censurada, e teria muita dificuldade, mas foi um desejo meu me manter firme nesse sentido e apresentar essa visão”, disse Chloé Aïsha, sobre a recepção do filme em seu país de origem. Por lá, a obra foi classificada como “pornográfica” pela imprensa tradicional e a diretora precisou ser escoltada na primeira exibição do longa em Uagadugu, capital burquinense.
No debate após a sessão, que recebeu mais de 150 espectadores, a cineasta explicou que a produção independente do longa encontrou diversas dificuldades. A atriz que vive a vovó Awa, por exemplo, precisou se exilar na Bélgica por conta da repercussão negativa não só em Burkina Faso, mas em outros países do oeste da África, onde a obra foi exibida.

“Foi difícil encontrar uma atriz idosa que quisesse atuar nesse papel, porque a questão do desejo entre pessoas da terceira idade e a sexualidade são assuntos complicados na África”, comentou a diretora.
O longa equilibra momentos de tensão, marcados pela presença da Jihad Islâmica no território e pelos desentendimentos da família tradicional em torno do futuro da matriarca viúva, com cenas sensíveis e leves. Ao longo da trama, essas passagens desenvolvem o romance da avó com seu amor de juventude, mediado por Natie — personagem vivida pela filha da diretora —, enquanto a jovem tenta se encontrar em seu turbilhão de emoções internas.
Ao responder a pergunta da assessora política Rhanna Rosa sobre os desafios para fazer o filme circular no oeste da África, Chloé Aïcha mostra que ao filmar de forma afetiva as dissidências das duas personagens quanto aos valores conservadores impostos pela sociedade burquinense, exerce seu direito de falar sobre o desejo de forma livre. “Esse filme incomoda muita gente em nome do conservadorismo, mas ele fala às pessoas que precisam e que têm o direito de existir”, reforçou.



