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Da África à Cidade Baixa: Mostra de Cinemas Africanos 2026 abre programação no SESI Casa Branca em Salvador
O primeiro dia de evento foi marcado por exibição de longa-metragem e bate-papo com o diretor Damien Hauser
Por Kauane Souza

Iniciou-se na última quinta-feira (17), a 9ª edição da Mostra de Cinemas Africanos em Salvador. A abertura deste ano aconteceu de forma simultânea no Espaço Cultural Sesi Casa Branca, na Cidade Baixa, e na Sala Walter da Silveira, nos Barris, com exibição do longa “Memória da Princesa Mumbi”, do diretor suíço-queniano Damien Hauser. A sessão nos Barris contou com a presença do cineasta, que conversou com o público após a exibição. A programação gratuita do festival se estende até quarta-feira (23), com exibições de filmes de 11 países do continente africano.
A produtora cultural e pesquisadora Ana Camila Esteves, criadora do projeto em 2018, ressalta a importância de sediar a abertura neste espaço: “Esta sala foi fundamental para a minha formação cinéfila. Lembro-me de como este local era vibrante, sediando festivais e uma programação regular de altíssima qualidade. É um ponto de referência para a cultura cinematográfica de Salvador. Retornar aqui, anos depois, com um evento próprio, é uma satisfação imensa”, afirma.
Um futuro afrofuturista em Umata

“Memória da Princesa Mumbi” é um filme de produção independente, filmado em locação no Quênia e dirigido pelo cineasta Damien Hauser. A obra estreou no Festival de Cinema de Veneza em 1º de setembro de 2025 e, desde então, tem marcado presença em diversos festivais pelo mundo, como Toronto International Film Festival (TIFF), Festival de Cinema de Istambul e BFI London Film Festival.
Usando a África de 2093 como plano de fundo, na terra fictícia de Umata, a obra mescla vários gêneros cinematográficos como sci-fi, romance e falso documentário, para refletir sobre um futuro atravessado por memória, tecnologia e o próprio ato de criar cinema.
“Eu amo o cinema africano e todas as diferentes identidades que ele traz, mas a indústria ocidental parece estar apenas interessada no sofrimento. É importante representar esses sentimentos, mas é só um aspecto da vida, existem partes boas que podem ser destacadas e que o cinema africano faz muito bem”, ressalta o diretor Damien Hauser.
Enquanto a inteligência artificial faz parte do debate trazido pelo roteiro, ela também foi utilizada por Damien na construção desse universo futurista. Com baixíssimo orçamento, ele afirma que o processo aconteceu de forma muito orgânica: “Quis representar na tela um futuro africano que quase não é retratado. Da forma que eu imagino que seria, misturando ficção científica e outros gêneros para projetar futuros protagonizados por pessoas negras”.
Representatividade na platéia

O impacto do evento se estende também ao público presente, que aponta na Mostra uma oportunidade rara de protagonismo negro nas telas e nos bastidores do cinema. O estudante de cinema e jurado da mostra Bruno Damasceno participa do evento pela primeira vez: “Participei de uma oficina em que cinco alunos foram selecionados para compor o júri crítico e tive a felicidade de ser escolhido. Especialmente para mim, como um homem negro, estar em um espaço que valoriza e privilegia o protagonismo de pessoas pretas é um lugar de grande pertencimento. É significativo ver isso traduzido na telona”.
Para além da representatividade diante da tela, o festival também é visto como um espaço de aprendizado sobre o continente africano. É o que destaca a gestora de projetos e impacto Joyce Vasconcelos: “Minha expectativa é aprofundar meu conhecimento sobre a identidade e o olhar dos diretores africanos, com os quais temos pouco contato. O festival é uma oportunidade de imersão não apenas na história do continente, mas, sobretudo, na sua identidade cultural. Espero, acima de tudo, desconstruir a imagem do cinema que estamos acostumados a consumir diariamente”.
Foco da 9ª edição

A edição deste ano tem como foco central o cinema de gênero. A curadoria propõe um enfoque em produções que apresentam abrangência em suspense, romance, ficção científica, sobrenatural, terror, musicais e comédias, revelando a diversidade estética do cinema contemporâneo produzido atualmente no continente.
Sobre a escolha do tema desta edição, Ana Camila Esteves explica: “Consideramos essencial desconstruir estereótipos sobre o continente africano através da sétima arte. Queremos romper com a visão limitada de que o cinema africano se restringe apenas ao documentário ou ao cinema autoral de difícil acesso, frequentemente rotulado como um cinema de superação ou produções densas. Nosso objetivo é mostrar ao público brasileiro a vasta diversidade de estilos e estéticas presentes. Esse é o diferencial que buscamos consolidar este ano”.
A Mostra de Cinemas Africanos segue com programação gratuita até quarta-feira (23), em diversos espaços de Salvador como a Sala Walter da Silveira, Cine Lankiana e Auditório da Facom.



