
Da África à Cidade Baixa: Mostra de Cinemas Africanos 2026 abre programação no SESI Casa Branca em Salvador
O itinerário passou pelas cidades de Feira de Santana e Antônio Cardoso na última sexta (18)
Por Kauane Souza

Foto: Jotapê
A programação da Mostra de Cinemas Africanos dessa vez ultrapassa as linhas da capital e chega a cidades do interior da Bahia. O Colégio Estadual Quilombola de Tempo Integral de Matinha, em Feira de Santana, e o Colégio Estadual do Campo de Tempo Integral Genivaldo de Almeida Brandão, em Antônio Cardoso, receberam sessões especiais na última sexta-feira (18). A ação é uma parceria com a Secretaria da Educação do Estado da Bahia.
A mediação das sessões ficou por conta do Cineclube Kalunga Bahia, grupo que exibe e promove debates de filmes sobre negritude e se junta à mostra pelo terceiro ano. Dandara Lopes, diretora do grupo, reflete sobre o processo de levar filmes a comunidades que não têm acesso ao cinema: “Estivemos em dois lugares importantes. Primeiro uma escola de educação de quilombola e segundo de educação do campo. Então trazer também essa perspectiva da educação popular para trocar a partir do audiovisual e trazer um diálogo sobre o filme, da percepção dos jovens que estavam lá assistindo, é muito importante para tornar acessível o cinema, principalmente o cinema africano”.
Telas em território quilombola

Foto: Jotapê
A primeira parada foi Matinha, distrito de Feira de Santana. O local abriga o maior número de comunidades remanescentes de quilombo certificadas pela Fundação Cultural Palmares. Parte majoritária dos estudantes do Colégio Estadual Quilombola de Tempo Integral de Matinha são parte dessas comunidades.
Os estudantes puderam assistir ao curta-metragem “Bam Bam”, dirigido e escrito pelo nigeriano Tolulope Itegboje e lançado em 2025. O filme é um sci-fi que narra a história de um adolescente retraído que se apaixona por um colega de classe, enquanto seu melhor amigo o incentiva a correr riscos. O curta já passou por festivais pelo mundo como TIFF – Toronto International Film Festival e ABFF = American Black Film Festival.
Sobre a experiência, a estudante Maria Clara Ferreira, da comunidade Lago das Moças, avalia: “A chegada deste projeto à nossa região é de extrema relevância, pois representa uma experiência inédita e enriquecedora para mim e para meus colegas. Considero fundamental o fato de o projeto enaltecer protagonistas negros. Encontrar na tela pessoas com quem nos identificamos, seja pelos traços, pelo cabelo, pelas vestimentas ou pelos gestos, é algo transformador.”

Foto: Jotapê
Lívia Maria Jesus, estudante e moradora da comunidade quilombola de Matinha, acrescenta: “Embora tenhamos consciência de nossa ascendência quilombola e afro-brasileira, raramente temos a oportunidade de estabelecer um contato direto com produções culturais e históricas do continente africano. Acredito que o evento despertou um interesse fundamental pelo estudo da nossa própria ancestralidade. É um conhecimento que nos pertence e que devemos preservar com orgulho.”
Cinema senegalês no campo
A segunda parada foi Antônio Cardoso, município localizado na margem esquerda do rio Paraguaçu e integrante da Área de Expansão Metropolitana de Feira de Santana. O lugar mantém forte ligação com a terra: economia, cultura e identidade social se estruturam a partir da convivência com o campo.

Foto: Jotapê
Para os estudantes do Colégio Estadual do Campo de Tempo Integral Genivaldo de Almeida Brandão foi exibido “Timpi Tampa”, comédia dramática senegalesa de 2025, escrita e dirigida por Adama Bineta Sow. O longa aborda os perigos da despigmentação da pele — o clareamento artificial — depois que a mãe do protagonista desenvolve câncer em decorrência da prática. Exibido em diversos países africanos e na França, o filme marcou um momento de expansão do cinema senegalês.
Sandro Cerqueira, professor de História e diretor do colégio, reconhece a importância da iniciativa: “Atendemos a um público majoritariamente negro, cerca de 75% dos nossos alunos se autodeclaram pretos ou pardos. Estamos situados em um território quilombola, cujo lema municipal é ‘um quilombo para todos’, o que torna esta atividade crucial para o fortalecimento do pertencimento local”.
Sobre o futuro, o diretor acrescenta: “Esperamos que esta seja a primeira de muitas ações culturais nas escolas estaduais da Bahia, abrangendo não apenas o cinema, mas também exposições artísticas, museológicas, fonográficas e outras expressões que enriqueçam a trajetória dos estudantes.”

Foto: Jotapê
A Mostra de cinemas africanos continua com a sua programação em espaços de Salvador até o dia 23 de setembro, quarta-feira.



