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Cinema de gênero em foco na Mostra de Cinemas Africanos 2026
Em 2026, o cinema de gênero ocupa o centro da curadoria da Mostra de Cinemas Africanos. O foco surgiu do próprio processo de pesquisa: ao longo do ano, filmes de diferentes países começaram a se aproximar pela maneira como trabalhavam com ficção científica, suspense, thriller psicológico, comédia, ação e narrativas sobrenaturais. A recorrência era grande demais para ser apenas uma linha secundária da programação.
O interesse da Mostra por essas experiências não é novo. Em edições anteriores, já exibimos faroestes, musicais, filmes de terror, thrillers e comédias produzidos em diferentes contextos africanos. Neste ano, porém, essas formas aparecem com uma força particular e nos permitem aprofundar uma questão que acompanha nosso trabalho há bastante tempo: o que aprendemos a reconhecer como cinema de gênero?
Grande parte do nosso repertório audiovisual foi formada pelo cinema estadunidense e europeu. É a partir dessas referências que geralmente reconhecemos os códigos de uma comédia, de uma ficção científica ou de um filme de terror. Mas o gênero existe e se transforma em cinematografias do mundo inteiro. Observar como cineastas africanos elaboram essas formas significa entrar em contato com outras gramáticas, referências e maneiras de construir narrativas que ampliam aquilo que estamos acostumados a esperar desses gêneros.
A programação de 2026 atravessa diferentes possibilidades: a ficção científica de Memória da Princesa Mumbi e Bam Bam; o sobrenatural de O Despertar de Anam, Dëmm – As Devoradoras de Almas e Cabra; a ação de The Dark Shujaa; a comédia de Sukari; o suspense policial de Diya; o thriller psicológico de Por Detrás das Palmeiras; e a aventura fantástica de O Pescador.
O documentário Crocodile acrescenta outra perspectiva a essa conversa ao acompanhar o coletivo nigeriano The Critics, formado por jovens que começaram a produzir seus próprios filmes de gênero para a internet praticamente sem recursos. Sua experiência permite pensar também nas condições materiais em que essas imagens são criadas e nos parâmetros que usamos para avaliar gêneros historicamente associados a grandes estruturas industriais.
Esse foco também abre outras possibilidades de aproximação com o público. Humor, suspense, medo, ação ou aventura oferecem códigos reconhecíveis mesmo para quem ainda teve pouco contato com os cinemas africanos contemporâneos. A familiaridade pode ser o ponto de entrada, mas os filmes rapidamente deslocam nossas referências.
Ao reuni-los, a Mostra propõe justamente esse movimento: ampliar nossa compreensão do cinema de gênero e, ao mesmo tempo, tornar mais complexa a ideia do que esperamos encontrar quando assistimos a um filme africano.



