
Com foco em cinema de gênero, Mostra de Cinemas Africanos retorna ao CCBB RJ em setembro

Mostra de Cinemas Africanos 2026 realiza abertura oficial na Sala Walter da Silveira
Filme queniano ‘Memória da Princesa Mumbi’ foi exibido na Unilab, universidade de referência nas relações entre Brasil e países africanos
Por: Anna Luiza Santos

São Francisco do Conde carrega nas ruas, nas comunidades e nas manifestações culturais as marcas de uma história profundamente atravessada pela diáspora. No território onde antigos engenhos ajudam a contar o passado escravista do Recôncavo, povos quilombolas e tradições de matrizes africanas mantêm vivas outras narrativas sobre a presença negra. É nesse cenário que a 9ª Mostra de Cinemas Africanos encontrou na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) um espaço para ampliar o encontro e dialogar sobre o continente africano e sua cinematografia.
A programação especial no Campus dos Malês ocorreu na última terça-feira (15) e contou com a exibição do filme afrofuturista queniano ‘Memória da Princesa Mumbi’, de Damien Hauser. O auditório lotado reuniu estudantes de diferentes países lusófonos, que atravessaram o Atlântico para fazer graduação em Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, Letras, Relações Internacionais, História, Pedagogia e Ciências Sociais na Bahia.
Miriam Reis, professora de Teoria da Literatura, explica que cerca de 30% do corpo discente da universidade é formado por estudantes de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. “A diversidade na Unilab é a nossa marca registrada. Para além das diferentes nacionalidades que encontramos aqui, nossa grade curricular prioriza intelectuais do Sul Global. Então, trazer a Mostra para cá significa fortalecer essas conexões e valorizar epistemologias que foram historicamente apagadas pelo processo de escravidão”, afirma.
Para Dandara Lopes, integrante do Cineclube Kalunga Bahia, que conduziu o debate, a reflexão da intelectual Cida Bento sobre memória ajuda a compreender a importância da exibição do longa em São Francisco do Conde. Ao citar a ideia de que “as sociedades escolhem o que querem lembrar e o que querem esquecer”, Dandara destaca como a preservação de narrativas negras e africanas também é uma forma de enfrentar apagamentos históricos.

“Esse é um filme que fala sobre luto, sobre esquecimento e sobre aquilo que escolhemos guardar. Tudo isso se relaciona diretamente com a questão da identidade e da interligação entre Brasil e África. A diáspora também passa pela necessidade de preservar heranças, ao mesmo tempo em que outras são construídas aqui. Por isso é importante preservar a nossa identidade e fortalecer essa conexão, para que possamos retomar e reparar todos esses anos de silenciamento e exclusão”.
Na avaliação de Silvio Chedir, estudante de Letras angolano, a frase “precisamos guardar a memória da princesa”, presente no fim do filme, confronta a ideia atribuída a Heidegger de que a África seria um continente sem história. Chedir ainda destaca o papel da arte diante dos impactos das estruturas de guerra, políticas e culturais: “Essas estruturas vão causando um adoecimento mental, mas continuamos produzindo arte e usando-a como instrumento de emancipação”.

Para quem deseja conhecer e discutir a pluralidade presente nos 54 países do continente africano, a Mostra de Cinemas Africanos se apresenta como uma oportunidade de ampliar esse olhar por meio do cinema. A programação segue em Salvador até o dia 23, promovendo reflexões sobre ancestralidade, identidade e a diversidade das culturas africanas.



