
Mostra de Cinemas Africanos promove sessões especiais para estudantes de escolas públicas

Mostra de Cinemas Africanos abre programação em Salvador com um convite à sensibilidade e memória
Segunda edição do Encontros do Audiovisual Brasil-África discute desenvolvimento de público no mercado cinematográfico
Evento promoveu conexão entre profissionais da cadeia audiovisual para pensar estratégias na ampliação da circulação de filmes africanos e brasileiros
Kauane Souza

Foto Fernanda Maia
A segunda edição do Encontros do Audiovisual Brasil-África aconteceu durante a programação da Mostra de Cinemas Africanos, entre os dias 15 e 19 de setembro, no Auditório Makota Valdina, localizado na Casa das Histórias de Salvador. Nesta edição o evento teve como propósito fortalecer os cinemas africanos e afrodiaspóricos por meio da criação e expansão de novas audiências.
O Encontro reúne profissionais do audiovisual do Brasil e de países africanos como Angola, Gana, Nigéria, Quênia, Ruanda e Senegal, como uma iniciativa de colaboração e troca de experiências. Durante as discussões, representantes dos países apresentaram seus projetos, mostrando a diversidade e a gama de possibilidades de como o cinema pode ser produzido e distribuído de diferentes maneiras, se adaptando aos recursos que cada um deles dispõe.
Diferente da primeira edição, onde a discussão se desenvolveu ao redor da expansão do cinema dos dois territórios a partir de projetos em conjunto, o encontro deste ano teve como principal tema “O desenvolvimento de público africano e diaspórico”, trazendo reflexões sobre estratégias, a logística de fazer cinema, dinâmicas de mercado e os desafios da construção de uma audiência.
Em formato de “Think Tank” (laboratório de ideias), o evento foi aberto para ouvintes em dois dias de estudo de caso e teve uma programação exclusiva para os profissionais convidados pensarem estratégias coletivas para ampliar a circulação de filmes africanos no Brasil e de produções brasileiras no continente africano.
Letícia Santinon, umas das coordenadoras do evento, falou sobre a abordagem desse ano: “Quando a gente está aqui, existe um intercâmbio de um pensamento de mercado audiovisual, profissional, para quem está trabalhando ativamente, pensando a difusão do cinema em seus países”.
“Por causa da exclusividade de espaços das salas de cinema que apenas apresentam filmes americanos, começaram a surgir em Luanda espaços alternativos de exibição”, afirma Kamy Lara, representante da Angola, sobre a ausência de filmes africanos nas salas de cinema de Luanda e a quase inexistente distribuição de filmes nacionais. A situação que se repete em outros territórios africanos, priorizando a transmissão de filmes estrangeiros, fez com que cineastas e produtores encontrassem rotas independentes para a exibição de seus filmes.
“Cine 80″ e “Cine ZUNGA” são projetos vigentes em Angola focados em contribuir com a disseminação de filmes que não são contemplados pelas grandes salas. Os cinemas comunitários não se limitam apenas aos filmes, mas são espaços de convivência, de debate. Os debates que acontecem após as exibições recebem, muitas vezes, convidados que estão envolvidos com a realização do filme, criando um espaço para falar sobre as obras.
Construído com materiais renováveis, o “The Falcon” é um projeto em Gana, pensado para ser o primeiro cinema no país dedicado ao cinema africano e filmes independentes da Europa e América. Jaqueline Nsiah, representante Gana, fala sobre como o espaço vai além do cinema: “Este é o primeiro espaço independente dedicado ao cinema africano, mas pensamos em oferecer uma experiência que vai muito além do cinema. Ser um espaço multifuncional para eventos e fomento da culinária local”, afirma Nsiah.

Yanis Gaye da Yetu (Un)Limited (Senegal) – Foto Fernanda Maia
Yanis Gaye (França / Senegal), coordenador internacional do evento, acredita que a construção de um público fiel está relacionada à conexão criada com as pessoas. Ele afirma que ter pessoas que consumam o seu trabalho é parte essencial do cinema. É de onde os produtores têm o seu principal retorno financeiro. Sem plateia, não tem show. “Uma vez que você estabelece confiança, um relacionamento próximo das pessoas, elas acabam voltando”.
Parte de entender desenvolvimento de público, passa pela análise de dados do mercado do audiovisual. Aline Zambrini, representante da Tomun, reforça esse ponto: “Entender as estatísticas, os dados, como funciona os editais, os investimentos, é muito importante para quem está fazendo cinema aqui no Brasil dar esse start”. Segundo gráficos trazidos por Aline, filmes brasileiros ainda são pouco procurados pelo público brasileiro, enquanto filmes americanos vendem milhões de ingressos em território nacional. Por mais que haja um crescimento, a difusão dos filmes ainda é muito menor do que poderia ser.
O Encontro de Audiovisual Brasil-África revela que os países encontram dificuldades com suas próprias especificidades, mas eles também compartilham semelhanças. O evento promove um fortalecimento de países da periferia global, que não fazem parte das rotas de grandes festivais, mas possuem obras importantes para serem exibidas. Philbert Aimé Mbabazi, representante da Ruanda, fala sobre a importância dessa conexão: “Cinema costumava ser algo de outro lugar. Contando histórias de outro lugar. Mas descobrimos que podemos contar nossa própria história’’.
Idealizado pela Yetu (Un)Limited, em colaboração com a Mostra de Cinemas Africanos e o Creative Africa Lab, o evento conta com apoio do Institut Français, como parte da Temporada França-Brasil 2025.



