
Corrupção e esperança: ecos de um país em “Estrada da Liberdade”

Longa “Os Meninos Estão Bem” e sessão de curtas destacam novas vozes do cinema nigeriano
O conto de uma comunidade heróica em A Lenda da Rainha Errante de Lagos
O Coletivo Agbajowo abraça o poder de reescrever o próprio destino através do cinema
por Victor Conegundes

A produtora Chioma Onyenwe fala em bate-papo pós sessão. Foto Fernanda Maia
Até onde você arriscaria para tentar melhorar sua vida? Qual o limite da vida pessoal em uma comunidade que precisa cuidar uns dos outros? Esses são alguns questionamentos profundos que guiam a experiência visual que é “A Lenda da Rainha Errante de Lagos” (2024), longa nigeriano dirigido e produzido pelo Coletivo Agbajowo que foi exibido no 8° ano da Mostra de Cinemas Africanos, em Salvador.
O longa conta a história de Jawu (Temi Ami-Williams), uma mãe solo que vive em uma das favelas flutuantes – similar as palafitas brasileiras – e que luta para sobreviver e dar sustento a seu pequeno Daniel (Kachi Okechukwu). A protagonista descobre uma grande quantia de dinheiro escondido por um político corrupto, o governador do estado de Lagos (Debo Adedayo) que seria usado para financiar (mais um) desmantelamento e expulsão forçada das comunidades de seus lares para dar lugar à expansão imobiliária.
Em um dos despejos, Jawu encontra a desesperança total pelo luto e decide pôr fim a sua própria existência – nesse momento, ela é salva por um líder comunitário e encontra a força espiritual da ancestralidade. Frente a tantos desgastes e sinais espirituais, Jawu é colocado em uma encruzilhada e precisa escolher se deve fugir ou lutar.
O filme coloca em foco um problema comum em nações emergentes: a rápida urbanização das metrópoles e a falta de inclusão das comunidades marginalizadas à estes centros. Ao longo dos últimos anos, incontáveis expulsões e despejos aconteceram em Lagos, maior cidade da Nigéria e mais populosa do continente africano, inclusive sendo denunciados pela Organização das Nações Unidas (ONU) em março deste ano.
Os elementos que levam a narrativa – os despejos, políticos corruptos, a grande discrepância entre as classes sociais – ecoaram entre o público presente na exibição da Mostra. No bate-papo com Chioma Onenwe, uma das roteiristas e produtoras do longa, muitos ouvintes perguntaram sobre a reverberação com o contexto brasileiro. Para Onenwe, o objetivo principal com a construção cinematográfica é o aprendizado. Ela conta que o processo começou com o ensino da própria comunidade em como serem “cidadãos jornalistas”, como um espaço de media advocacy – uma defesa social usando as mídias disponíveis.
Chama atenção sobre a produção do filme ter escalado basicamente 5 atores de carreira — além dos já citados, o casting conta com o líder espiritual (Gerard Avlessi) e uma amiga de Jawu (Teniola Aladese) — enquanto todos os outros personagens são da própria comunidade. Onewne conta que é “uma história deles sendo contada por eles”.
O luto é uma constante muito forte do longa, até nos momentos doloridos e difíceis de assistir, a direção de fotografia entrega cenários estonteantes, uma grandeza estética muito bem pensada, que aparece mesmo nos contrastes da desigualdade.
Quando questionada sobre a reimaginação dos acontecimentos, Onenwe afirma o poder da contação de histórias do cinema: “Importante para nós imaginar o final que nós gostaríamos ou desejamos, sabe. Que nós tivéssemos mais controle sobre algo que queríamos que fosse diferente ou possuíssemos o poder para fazer diferente. Esse é o poder do cinema”.





