
Laboratório Crítico ministrado por Adolfo Gomes reflete o cinema africano através da história
Mostra de Cinemas Africanos celebrou legado de Mahomed Bamba em Salvador
Festival dedicou sua edição de 2025 ao pesquisador marfinense que abriu caminhos para o diálogo entre África e Brasil através da crítica e da docência
Por Lorena Conceição

Em 2025, a Mostra de Cinemas Africanos foi dedicada ao professor Mahomed Bamba (1966-2015), pesquisador e crítico que dedicou sua vida ao fortalecimento do diálogo entre o cinema africano e o público brasileiro.
Na programação realizada em Salvador, a vida e obra do professor emérito post mortem ganhou centralidade com o Minicurso “Cinemas Africanos por Mahomed Bamba”, ministrado pelas pesquisadoras e coordenadoras do CineClube África, Jusciele Oliveira e Morgana Gama.
A exibição do filme “Djeli – Contos modernos”, na Saladearte da UFBA, também foi um momento de celebração à memória do professor. A obra é analisada por Bamba no livro “Cinemas Africanos Contemporâneos”, onde é mostrada uma nova apresentação dos Griots, contadores de histórias e guardiões das tradições orais milenares da África
Natural da Costa do Marfim e doutor pela USP, Bamba foi professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia entre 2009 e 2015, quando faleceu aos 48 anos. Em 17 de setembro de 2025, mesmo dia da abertura da Mostra de Cinemas Africanos em Salvador, a UFBA concedeu a ele o título de professor emérito post mortem – título concedido aos docentes com relevante contribuição para a Universidade e para a sociedade – um reconhecimento que resultou do esforço das pessoas tocadas por seu legado.
Ana Camila Esteves, idealizadora, curadora e diretora da Mostra, contou que o professor foi o responsável por trazer o cinema africano para sua vida. “Quando ele chegou na faculdade, ele transformou sabe? ” Ele era muito avesso a modismos acadêmicos. Trouxe outras referências, outras formas de pensar cinema. Ele chegou com outro repertório, tanto acadêmico como fílmico.”
“Djeli – Contos Modernos”: tradição e renovação em tela

Cena do filme Djeli – Contos Modernos
O filme Djeli – Contos modernos se conecta à trajetória de Bamba por sua origem marfinense. A narrativa propõe um diálogo entre as tradições e a contemporaneidade, a partir de uma história ancestral de duas pessoas de classes sociais diferentes que se apaixonam.
Geni Magna, que esteve na sessão do filme, ressalta: “Eu gostei dessa discussão sobre a tradição, a necessidade da renovação, o que são os interesses da nova época e das novas gerações.” Da mesma forma, a espectadora Maria Cristina refletiu sobre a mensagem do longa. “Eu fiquei observando como o filme questiona as tradições, algumas maneiras peculiares nossas de recepcionar a partir da influência do processo de colonização”, contou.
Ambas ressaltam a importância da Mostra de Cinemas Africanos na divulgação dessas produções. ‘Filmes africanos são obras às quais a gente tem pouco acesso, são raros os momentos de contato. Quando, na verdade, precisamos reconhecer, identificar e conhecer histórias que também nos pertencem’, disse Maria Cristina. Já para Geni Magna, “esse cinema contribui para desmistificar um pouco a visão que temos da África. Ao mesmo tempo, aproxima do olhar dos próprios africanos — do cineasta, do produtor, do diretor — sobre sua realidade “, conclui.
Minicurso promoveu imersão teórica e afetiva na trajetória de Bamba

Jusciele Oliveira e Morgana Gama. Foto Fernanda Maia
O minicurso “Cinemas Africanos por Mahomed Bamba” visitou a trajetória intelectual de Bamba por meio de três eixos centrais que atravessam sua produção: Festival (recepção), Griot (narrativa) e Música (gênero cinematográfico). A atividade apresentou um panorama crítico e contextualizado da sua bibliografia, articulando seus textos com a análise de trechos de filmes por ele estudados.
Dentre tantas contribuições pessoais, acadêmicas e reverberações deixadas por Mahomed Bamba, pensar em apenas um legado é uma tarefa difícil. O simples fato de optar pelos cinemas africanos como objeto de estudo, para Morgana Gama, por exemplo, é um dos maiores legados deixados por ele: “Infelizmente, nós que estudamos e pesquisamos cinema, de um modo geral, quando vamos nos debruçar sobre as principais teorias, não encontramos os filmes feitos por cineastas africanos. Essa escolha nos oferece novas perspectivas para os estudos teóricos e históricos de cinema.”
A pesquisadora também aponta que Bamba contribuiu para a compreensão de que as cinematografias africanas oferecem algo que as produções estadunidenses e europeias não alcançam, justamente por emergirem de outro contexto cultural. “Não se diferencia necessariamente pela temática que apresentam, mas principalmente pelas escolhas e estratégias narrativas de seus cineastas. É a partir de um objeto muito diferenciado e, infelizmente, ainda desconhecido pelo grande público.”
Jusciele Oliveira, que foi coorientanda de Bamba, destaca a importância de sua atuação na universidade: “Apesar de ter feito sua formação em Letras, Bamba foi um grande analista do cinema. Como professor africano e professor preto, que falava de África em todos os espaços, sua trajetória ganha ainda mais força por estar na Facom e ter recebido o título de professor emérito, mesmo que postumamente. Esse corpo preto, institucionalizado ali, sendo lembrado em um espaço de poder, é de suma importância.”
Entre os participantes, o doutorando em Educação na FACED, Hércules Andrade, afirmou que o curso foi uma oportunidade de levar o conhecimento aprendido para a sala de aula e valorizar a autenticidade das narrativas africanas. “A gente é muito preso à perspectiva de consumir cinema estadunidense, do norte-americano. É muito legal ver essas narrativas sendo contadas aqui, num lugar tão distante, mas ao mesmo tempo tão próximo do continente”. Em outro momento, contou sobre a identificação com os filmes: “Ao mesmo tempo que é bem diferente de tudo que eu já tinha consumido, é muito legal ver gente parecida comigo na tela, sabe? E aí eu acho que isso me pega um pouco.”
Paloma Dança, dançarina e atriz, explicou que veio ao curso para conhecer melhor o trabalho de Bamba. “Eu tinha ouvido falar dele na própria Mostra e pensei que o minicurso poderia somar no meu trabalho”. Já a jornalista Lorena Andrade contou que já conhecia Bamba como referência, mas ainda não havia se debruçado em sua obra. ‘Tenho interesse em conhecer mais a experiência dos cinemas africanos. Minha relação com o cinema é recente, estou me aproximando agora do estudo mais acadêmico’, relatou.
É mais que explícito que a obra do professor marfinense continua sendo relevante. “Ele era muito inspirador e generoso”, recordam as pesquisadoras. Sua presença resiste em momentos como a Mostra de Cinemas Africanos, que, junto à sua obra, se afirma como uma janela fundamental para conhecer os cinemas africanos e ter novos olhares sobre o continente. Afinal, como lembram os participantes, em meio a escassez de contato com os cinemas africanos, feitos como esses transformam as experiências de cada um.

Hércules Andrade – Foto Lorena Conceição

Lorena Andrade – Foto Lorena Conceição



