
Segunda edição do Encontros do Audiovisual Brasil-África abre discussões sobre o desenvolvimento de público no mercado cinematográfico

A Fotografia como Afeto e Resistência em “O Retorno das Memórias de Amor”
Mostra de Cinemas Africanos abre programação em Salvador com um convite à sensibilidade e memória
Festival celebra legado do professor Mahomed Bamba, destaca o cinema nigeriano contemporâneo e promove diálogos entre Brasil e África
Por Bia Nascimento

Convidados, cineastas e realizadores da Mostra de Cinemas Africanos 2025 em Salvador (BA). Foto Fernanda Maia
Muita emoção, diversidade cultural e entusiasmo marcaram a noite de abertura do 8º ano da Mostra De Cinemas Africanos (MCA) em Salvador, que aconteceu no dia 17 de setembro de 2025, no Cineteatro 2 de Julho. Esta edição foi dedicada em homenagem ao professor e pesquisador Mahomed Bamba e seu legado sobre os estudos dos cinemas africanos no Brasil. A abertura contou com a exibição do longa-metragem Demba, dirigido pelo autor senegalês Mamadou Dia, que esteve presente e conversou com o público antes da sessão.
A cerimônia abriu com as falas institucionais de Ana Camila Esteves, diretora da Mostra; Daniel Arcades, representando a DAN Território de Criação; do diretor do IRDEB, Flávio Gonçalves; da coordenadora de audiovisual do programa SalCine, Milena Anjos, da diretora da Aliança Francesa Salvador, Sandrine dos Santos; e do secretário de cultura do estado da Bahia, Bruno Monteiro.
Neste ano, o festival apresentou como foco especial o cinema nigeriano contemporâneo, além de exibir outras produções cinematográficas produzidas em diferentes países do continente africano, incluindo filmes que estrearam mundialmente em importantes festivais internacionais de cinema como: Festival de Cannes, Berlinale, Festival de Locarno, Toronto International Film Festival e Tribeca Film Festival.
“Comecei a ver esses filmes e percebi que seria interessante juntar obras nigerianas para que as pessoas vissem o que está sendo produzido contemporaneamente”, afirma a pesquisadora Ana Camila Esteves que também é uma das curadoras da Mostra.
Em 2025, a Mostra de Cinemas Africanos integrou a programação da Temporada França-Brasil, a partir do eixo temático: “Diversidade das sociedades e diálogo com a África”. A diretora da Aliança Francesa Salvador, Sandrine Santos, ressalta que a Mostra está alinhada com as orientações da Temporada França-Brasil, propondo um cinema educativo voltado à emancipação cultural, contribuindo para uma reflexão crítica sobre os desafios políticos e sociais contemporâneos.
“O festival busca aproximar os brasileiros das diversas Áfricas, promovendo a interculturalidade por meio de abordagens cinematográficas que exploram questões de identidade plural, as relações históricas entre Europa, África e Brasil e a construção de narrativas de protagonismo negro”, destaca Sandrine.
Reencontros baianos e africanos
Salvador é a cidade de origem da Mostra de Cinemas Africanos e este é o quarto ano que o festival acontece na capital baiana. Daniel Arcades, sócio da DAN Territórios, que produziu o festival nesta edição, afirma: “a gente entendeu a importância de um evento como esse em uma cidade como Salvador; a importância de nos reunirmos e dialogarmos com os nossos que estão do outro lado do oceano”.
Dentro e fora do Cineteatro, era possível perceber encontros sensíveis entre baianos, brasileiros e africanos. Entre os inúmeros motivos para celebrar, Ana Camila Esteves, idealizadora da Mostra, acredita que um deles seja essa recepção calorosa do público. A ganesa Jacqueline Nsiah, co-curada da programação neste ano, destaca: “Salvador é um lugar muito especial para a diáspora africana, para o continente africano. Vocês conseguiram guardar muito da nossa cultura”.
Para a exibição do longa-metragem Demba, Mamadou Dia cruzou oceanos e fronteiras entre Senegal e Bahia. O diretor celebra o convite para a estreia: “é muito lindo ver uma semelhança entre as culturas. Todos nós viemos do mesmo lugar. Eu fiquei, vocês foram, mas nós somos a mesma gente”.
Demba: um retrato do luto e da resiliência no Senegal

Cena de “Demba”. Foto Fernanda Maia
O filme “Demba” retrata uma das dores mais profundas que qualquer ser humano pode sentir, o luto. Não somente pela dor da perda, mas pela capacidade de ser capaz de sequer mensurá-la. No caso do protagonista Demba, ora manifesta-se como lapsos de alegria, ora como apatia e dissociação, enquanto vai e vem de cada parte do Senegal.
E sobre o Senegal, Mamadou Dia relembra como sua própria história de vida foi uma bússola para conduzir o longa-metragem: “Fazer esse filme me ajudou a falar com meus irmãos, amigos e outras pessoas sobre o luto. Foi um processo de dar significado à morte. Nos idiomas africanos, não temos uma palavra para nomear a depressão, mas sabemos o que ela é e descrevê-la. Sabemos cuidar de uma pessoa deprimida”. Ao fim da exibição, o público mirava atentamente a grande tela e não hesitou em iniciar uma grande salva de palmas para a obra que emocionou a plateia.
Mahomed Bamba: O legado de um pesquisador em cinemas africanos na Bahia

Regina Gomes celebra memória do professor Mahomed Bamba. Foto Beatriz Nascimento
Professor e pesquisador dos cinemas africanos e da diáspora dos povos do continente, Mahomed Bamba lecionou na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom) durante seis anos. Mahomed conduziu dezenas de estudos sobre os cinemas africanos, além de coordenar o Grupo de Pesquisa em Recepção Crítica da Imagem (GRIM), e o Laboratório de Análise Fílmica (LAF).
O pesquisador faleceu precocemente em 2015, e neste ano, a Facom atribuiu ao costa-marfinense o título de Professor Emérito post mortem, uma honraria concedida pela instituição. Também professora da Faculdade de Comunicação da UFBA, Regina Gomes foi ao palco homenagear o colega de profissão, que acabou se tornando um amigo: “Com seu carisma, seu sorriso e sua erudição, ele construiu pontes, cultivou amizades e deixou uma obra de valor inestimável, a qual temos a missão de honrar. Viva Bamba!”.
Kitanda da DAN: Economia criativa afro-brasileira

Jaqueline Daiane, empreendedora de moda afrobaiana na abertura da Mostra de Cinemas Africanos. Foto Beatriz Nascimento
Durante a abertura do evento, a MCA promoveu a “Kitanda da DAN”, uma iniciativa voltada à promoção da economia criativa afro-brasileira que contou com dez empreendedores baianos expondo seus trabalhos para o público. Jaqueline Daiane foi uma das presentes com sua marca de moda afro Jaque Diva Black, que existe há 9 anos.
“Tudo isso veio com o resgate da minha ancestralidade e espiritualidade. Criei minha marca para que as mulheres se sintam mais empoderadas e possam sentir essa conexão”, comenta com orgulho. A ação foi mais um dos momentos de conexão e diálogo entre a cultura africana, baiana e afro-diaspórica.









