
Mostra de Cinemas Africanos revela novos horizontes para estudantes da rede pública

Corrupção e esperança: ecos de um país em “Estrada da Liberdade”
Masterclass com Mamadou Dia destaca roteiro, comunidade e representação no cinema africano
Diretor senegalês conversou com cineastas e público sobre processos criativos, narrativas e a valorização de histórias reais nos cinemas africanos
Por Olívia Orlandini

Cineasta senegalês Mamadou Dia ao lado da cineasta baiana Ceci Alves. Foto Fernanda Maia
A Masterclass “Roteiro, Comunidade e Conflito: uma conversa com Mamadou Dia” aconteceu no dia 18 de setembro, no prédio do Arquivo Público de Salvador, como parte da programação da Mostra de Cinemas Africanos 2025. O evento reuniu realizadores, roteiristas e distribuidores de diferentes regiões do país e do mundo.
Mediada por Ceci Alves, cineasta, roteirista e jornalista baiana, a conversa com as cadeiras postas em formato de roda, a pedido do próprio diretor, aconteceu de forma horizontal, propondo uma troca entre os presentes, que perpassou o processo criativo do diretor senegalês Mamadou Dia até a análise de obras fílmicas africanas.
O cineasta contou um pouco sobre sua formação fora do audiovisual e como isso contribuiu para que ele se tornasse o profissional que é hoje. Em seguida, o diretor respondeu questões sobre sua obra mais recente, Demba (2024), que abriu a programação da Mostra de Cinemas Africanos em Salvador.
O público se interessou em conhecer mais, desde as escolhas estéticas, até o fato do filme se tratar de uma história pessoal, que para além do luto, retrata a depressão, temas tidos como tabu no Senegal. Justamente por ser baseado no fato de ter perdido sua mãe aos 13 anos, Dia contou que demorou um tempo para escrever o filme e que apenas conseguiu acessar as emoções do luto depois de adulto, em terapia, pois vivia constantemente em negação.
Além da narrativa pessoal, Mamadou Dia trabalha em seus filmes com a comunidade que o viu crescer, dos cenários aos atores, que não são profissionais. O cineasta contou que conhecia Ben Mahmoud Mbow, intérprete de Demba, desde criança e que reconhecia nele e em outras pessoas de seu território as personagens do filme, agregando à construção dos mesmos e trazendo aquelas pessoas para a produção.
Cinemas Africanos: Desafiando estereótipos e visões coloniais
Durante a conversa debateu-se sobre o uso do silêncio no filme como uma das formas de representação do luto, assim como, a escolha de deixar sem legenda uma das sequências em que os personagens cantam em sua língua nativa.
“Quando você chega em um país, você pode não falar aquele idioma, mas música sempre vai causar algum sentimento, mesmo que você não entenda o que está sendo dito. Nessa parte do filme eu queria que as pessoas sentissem a música”, explica o diretor.
Os cineastas presentes contribuíram com a conversa que se desenvolveu, abordando como o cinema pode ser uma ferramenta de valorização e preservação das línguas locais quando utilizadas nos filmes. Muitas vezes as produções audiovisuais exigem o idioma do país colonizador, o que torna um ato político reivindicar o uso das línguas nativas. “Não faz sentido colocar uma comunidade para falar no filme uma língua que não é a sua”, afirmou Mamadou Dia.
O diretor nigeriano C.J. Obasi, também presente na masterclass, acrescentou a respeito de como manifestações culturais, especialmente no que tange a espiritualidade, são tratadas como fantasia nas classificações de gênero do cinema, quando presentes nas obras. O cineasta trouxe o exemplo de seu próprio filme: “Mami Wata (2023) é fantasia no gênero, mas não é uma fantasia, é a realidade daquelas pessoas”.
“Saiba as regras primeiro e depois brinque com elas”, disse Dia em reflexão sobre como a retratação de corpos negros e/ou africanos é feita muitas vezes do “ponto de vista da pobreza”. Ele apontou que essa perspectiva de imagem é a que uma série de festivais e produtores tem interesse em mostrar sobre o continente africano e reiterou a importância de se criar filmes que garantam a dignidade e retratem esses corpos fora de uma visão colonialista relacionada à pobreza e à violência. “Ao invés de fazer um filme sobre pobreza, faça um filme sobre alguém que quer conseguir algo”, conclui Mamadou Dia.

Foto Fernanda Maia
Trocas criativas e inspiração para novas narrativas
A atividade contou com a presença de profissionais do audiovisual de áreas diversas que assim como o cineasta senegalês, sentiram a potencialidade da conexão entre Bahia e África. A professora e realizadora Ana Paula Nunes se inspirou muito com a conversa. “Anotei coisas para usar depois, não só em aula, mas também em processo criativo. Faz tempo que não faço nada de criação, mas agora me deu um desejo muito grande de voltar a fazer. Então esse espaço mobiliza a criatividade da gente.”
Para Chloe Genga, de Nairobi, Quênia, o encontro foi incrível. “Venho da distribuição e a masterclass foi mais sobre fazer o filme, o que de certa forma se alinha com o processo, porque nós, como distribuidores, estamos vendendo a história, então é importante que saibamos quais tipos de histórias estão sendo contadas e como é o processo. Até vindo de África, ouvir as perspectivas de realizadores aqui do Brasil foi maravilhoso.”
O cineasta afirmou, ao fim da masterclass, que ficou muito feliz com a recepção do filme, destacando a sala cheia e o retorno positivo do público, que se mostrou conectado à história e ao personagem. Ele avaliou a discussão como proveitosa, ressaltando os debates sobre o processo de realização cinematográfica e a presença de projetos voltados às comunidades locais e à valorização da dignidade das pessoas.
“O que fica dessa conversa é o aprender com outras pessoas. É bom entender como cada um faz seu filme, porque eu ainda estou tentando encontrar esse ‘processo’. É muito interessante ver como as pessoas recebem a obra, como compartilham suas experiências com o luto, perda, depressão. Essa é a razão pela qual faço filmes”, completou.



