
A arte ocupando o centro da cidade em “Fuckin’Globo”

Mostra de Cinemas Africanos celebrou legado de Mahomed Bamba em Salvador
Laboratório Crítico ministrado por Adolfo Gomes reflete o cinema africano através da história
Em atividade formativa, participantes mergulham em obras africanas para exercitar o olhar crítico através de debates e exercícios práticos
Por Olívia Orlandini

Foto Fernanda Maia
Entre os dias 15 e 24 de setembro de 2025 a Mostra de Cinemas Africanos realizou mais uma edição do Laboratório Crítico. Sob a regência do jornalista, cineclubista e crítico de cinema Adolfo Gomes, o laboratório propôs um espaço de imersão na crítica, especialmente de filmes africanos.
Com exibição de filmes, exercícios práticos e debates, os encontros, que aconteceram na Casa das Histórias de Salvador, se desenrolaram num primeiro momento a partir de uma perspectiva geral do assunto. Tratou-se sobre a definição da crítica e o que a diferenciaria de uma resenha, até os tipos de críticos, classificados por Gomes nas seguintes categorias: arquivista, criador, memorialista e instantâneo, sendo o último muito ligado à contemporaneidade e aos criadores de conteúdo do nicho cinematográfico.
“Escrever para se entender o que se quer dizer”, disse o ministrante discorrendo sobre como organizar os pensamentos no ato da escrita crítica. Acrescentou também meios de diagnosticar o que pode ser melhorado no texto, como lê-lo em voz alta para sentir seu ritmo.
O filme Monamgambeee (1968, Angola) foi a primeira obra a ser exibida para discussão. Filmado na Argélia, o filme é dirigido pela cineasta e poetisa Sarah Moldoror, francesa com ascendência guadalupense e a primeira mulher a dirigir um filme em um país africano. O curta foi o primeiro da cineasta e é baseado no conto de José Luandino Vieira, escritor luso-angolano.
Monamgambeee é considerada a primeira ficção que trata da opressão portuguesa, sobretudo sobre o território angolano. A história retrata um homem encarcerado que pede à esposa que leve para ele um “fato completo”, prato típico de Angola. As autoridades, por não compreenderem, tomam o pedido como uma conspiração e o torturam para que diga a “verdade”.
Assim, levantou-se um debate a respeito não só do contexto histórico do filme, mas também da atuação da cineasta nos movimentos de luta contra o colonialismo nos países africanos, utilizando-se do cinema para combater o sistema opressivo presente no continente. O título do curta-metragem significa “morte branca”, expressão angolana relacionada à polícia da época, demonstrando que esse jogo com a palavra está para além da narrativa, se emaranhando aos detalhes do corpo fílmico.

Monamgambeee (1968, Angola) Dir. Sarah Moldoror

Palavra Camponesa (1975, Senegal) Dir. Safi Faye
O segundo filme exibido foi Palavra Camponesa (1975, Senegal), dirigido por Safi Faye, traduzido do francês como “Carta Camponesa”, porém contestado pela própria diretora, que afirmou que a tradução mais próxima da língua wolof seria “Palavra ou Voz do Camponês”. A obra se encontra numa linha tênue entre o documentário e a ficção e foi o primeiro longa-metragem dirigido por uma mulher africana, distribuído internacionalmente, embora tenha sido proibido de ser exibido no próprio Senegal por um período.
O longa, filmado no vilarejo de Faye, conta a história de um jovem casal que quer se casar, mas por conta das condições econômicas enfrenta dificuldades para realizar seu desejo. Com isso, o rapaz Ngor se vê forçado a ir para a capital para conseguir pagar o dote do casamento.
A cineasta retrata o cotidiano de sua vila por entre a história ficcional do casal e a realidade de trabalhadores, que precisam deixar suas comunidades e famílias em busca de melhores condições. A narrativa é contada em formato de carta na voz de Safi Faye para, de acordo com a mesma, “mostrar ao mundo e enfatizar a maneira como eles viviam”.
“O roteiro morre assim que o filme começa”, afirmou Adolfo Gomes, em debate sobre o longa, onde se levantou a questão de até que ponto as falas do filme seriam espontâneas, para que fosse considerado um documentário, ou roteirizadas, para ser considerado uma ficção. Tal afirmação dialoga com a abordagem cinematográfica de Safi Faye que já relatou: “mesmo que eu possa escrever um roteiro para meus filmes, eu basicamente deixo os camponeses livres para se expressarem na frente de uma câmera e eu escuto.”
Faye assume a posição de dar voz aos camponeses em seus filmes e, assim como Maldoror, utiliza-se de um inteligente jogo de palavras que se embrenha no fazer do filme, podendo ser citado o som direto de Palavra Camponesa, que expressa através da sonoridade essa voz direta do camponês falando com a câmera.
Entre o debate e a formação crítica

Foto Fernanda Maia
A fruição a respeito das obras cinematográficas precedeu as atividades práticas, que consistiam na produção de material de crítica cinematográfica sobre os curta-metragens exibidos na Mostra, colocando em ação o exercício do olhar crítico sobre as obras africanas e seus contextos.
Samara Castro, assessora de comunicação, que estava participando pela segunda vez do Laboratório Crítico, gostou muito da experiência. “Assistir alguns filmes na sala de aula foi muito bom para poder discutir, durante o processo de construção, o que de fato é a crítica. Eu acho que esse espaço de discussão que o evento propõe é interessante, porque acaba formando críticos de cinema, sobretudo de cinemas africanos, e dando visibilidade a esses filmes que muitas vezes a gente não tem acesso. É algo muito positivo para nós que estamos aqui construindo esse nosso olhar cinematográfico.”
O professor Leonardo Araújo salientou a questão de se ter a prática da crítica no laboratório, até mesmo na parte teórica. “O fato da gente estar comentando e exercitando, mesmo que seja verbalmente, é a definição básica da crítica, que é a de prolongar a experiência do filme. Os filmes exibidos e discutidos já são filmes inseridos nos cinemas africanos, então dá uma certa contextualizada, para poder ver os filmes mais recentes que estão na Mostra.”
O facilitador considerou uma grande oportunidade ministrar a atividade com a chancela de laboratório, no sentido de poder experimentar e apresentar resultados. “É uma atividade instrumental, que demanda do participante a boa vontade de produzir textos. Estou muito satisfeito, porque o grupo reunido nessa oficina tem afinidade e interesse pela escrita e isso vai contribuir muito porque as cinematografias africanas ainda carecem de maior difusão e divulgação no Brasil e em boa parte do mundo.”
“Essas iniciativas sistemáticas de trazer filmes africanos é um auto reconhecimento a partir do outro, da descoberta. A gente descobrir aquilo que nós somos a partir dos filmes, das nossas origens e ancestralidade”, completou Gomes, salientando que um evento como a Mostra de Cinemas Africanos deve ser aproveitado como um espaço de celebração às raízes e conexão entre Salvador e o continente africano.



