
O luto sensorial e o ‘catolicismo negro’ de “Ínfimos em um Mundo Esmagador”

Laboratório Crítico ministrado por Adolfo Gomes reflete o cinema africano através da história
A arte ocupando o centro da cidade no Fuckin’Globo
Documentário traz entrevistas e reportagens que contextualizam o cenário político angolano da época, ampliando a compreensão do gesto artístico e de sua força de resistência
Por Elaine Alves

Kamy Lara e Ana Camila Esteves. Foto Fernanda Maia
Fuckin’Globo, documentário de 47 minutos dirigido por Kamy Lara, resgata a energia de uma ocupação artística que marcou Luanda, capital de Angola, em 2015. Sem patrocínio ou apoio institucional, um grupo de artistas tomou os quartos do Hotel Globo e os transformou em espaços de exposições efêmeras, com performances, instalações e videoarte.
O filme não se limita a narrar o fato: ele recria a vibração de um ato coletivo que desafiou censura e restrições políticas, revelando a força da arte como gesto de liberdade. Entre depoimentos e registros visuais, a câmera acompanha artistas como Kiluanji Kia Henda, Tho Simões, Toy Boy, Mussunda Nzombo e Pamina Sebastião, mostrando como a experiência impactou suas trajetórias.
“Transformar quartos de um hotel em galerias de arte, isso é fantástico! Ter a experiência de assistir o que foi esse movimento contribui muito no sentido de ampliar a nossa visão de África e especificamente de Luanda”, destaca a espectadora Morgana Gama.
Para Kamy Lara, filmar foi mais do que observar. Ela descreve o documentário como seu “quarto” dentro do Fuckin’Globo, um espaço de criação que dialogava com todos os outros. Ao registrar cada gesto e cada intervenção, a diretora transformou o ato de documentar em parte integrante da própria obra, criando não apenas um filme, mas um testemunho do processo coletivo que redefiniu a relação entre arte e cidade.
“É super importante partilhar um bocado do contexto da arte contemporânea de Angola com Salvador”, acrescenta a diretora, destacando a potência desse intercâmbio entre as duas cidades.
A conexão entre Luanda e Salvador emerge de forma natural: o centro das duas cidades é berço de criatividade, onde paisagens, sons e encontros inspiram e permeiam as criações. No Fuckin’Globo, essa energia pulsava em tempo real, cada artista criava em seu próprio quarto, e a vivência no centro da cidade fazia com que vozes e movimentos atravessassem as obras, formando um laboratório vivo de experimentação coletiva.
A diretora da Mostra, Ana Camila Esteves, destaca que a escolha do filme dialoga com os fortes movimentos artísticos urbanos de Salvador e com a curiosidade que o público brasileiro tem por países africanos de língua portuguesa, além de aproximar estética, política e ocupação de espaços na cidade.
Ela também ressaltou a relevância do diálogo entre arte e política no contexto atual. No dia da exibição (21/09/2025), manifestações contra a PEC da blindagem e da anistia aconteciam em Salvador e em diversas cidades do país. “Enquanto estamos falando, está acontecendo a manifestação na rua, de pessoas de todas as categorias, e que também é arte. Política e arte conversam o tempo todo e se desdobram em ações”.
Fuckin’Globo não é apenas um registro de uma ocupação artística em Luanda, é também um convite à reflexão sobre como arte, política e cidade se cruzam e se transformam mutuamente. O filme mostra que a criação coletiva tem o poder de ressignificar espaços urbanos, gerar diálogos interculturais e inspirar novas formas de resistência e engajamento.




