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A Fotografia como Afeto e Resistência em “O Retorno das Memórias de Amor”
Documentário ugandês transforma acervo do fotógrafo Kibaate Aloysius Ssalongo em um testemunho vivo de memória, dignidade e resistência cultural.
Por Estefanie Santos

A curadora ganesa Jacqueline Nsiah e o diretor ugandês Ntare Guma Mbaho Mwine. Foto Fernanda Maia
Em um mundo onde as memórias muitas vezes se perdem, o documentário “O Retorno das Memórias de Amor” (Uganda, Estados Unidos, 2024 ) surge como um ato de resgate e justiça. Dirigido por Ntare Guma Mbaho Mwine e produzido por Steven Soderbergh, o filme narra uma história que começou por puro acaso. Em 2002, com o carro quebrado na cidade de Mbirizi, em Uganda, Mwine descobriu o modesto estúdio do fotógrafo Kibaate Aloysius Ssalongo.
O trabalho de Kibaate, que registrou a vida local do final dos anos 1950 até sua morte em 2006, impressionou Mwine. O que era para ser apenas um encontro casual se transformou em uma jornada de 22 anos, guiada por uma promessa. “Como vocês puderam perceber, estou sempre andando com minha câmera, sempre estou documentando tudo o que ocorre comigo. Nem sabia que ia dar no que deu, quando me deparei com uma boa quantidade de documentos dele (Kibaate) prometi divulgar seu trabalho”, compartilhou o diretor. O documentário, portanto, não nasceu de um plano ambicioso, mas de um gesto genuíno que se tornou uma missão artística.
As imagens em preto e branco de Kibaate, que retratam casamentos, batizados e cenas do cotidiano, são mais do que simples registros. Em uma Uganda marcada por conflitos e apagamentos, essas fotos são vestígios de resistência cultural. Elas mostram a beleza, o amor e o orgulho de uma comunidade que, muitas vezes, era ignorada pelo resto do mundo.
A sessão do documentário, realizada em 18 de setembro de 2025 na Saladearte Cinema da UFBA, contou com a presença do diretor e gerou reflexões emocionadas do público. A jornalista Tunísia Cores, uma das espectadoras, comentou como a obra ressignificou sua relação com a fotografia: “Fotografia tem a capacidade de capturar momentos únicos, capturar pessoas e emoções”. Para ela, o filme não transformou sua percepção sobre a fotografia, mas potencializou, reforçando o valor de registrar momentos que passam despercebidos, mas que têm um valor sentimental.

Jornalista Tunísia Cores revela que o filme potencializou sua percepção sobre a fotografia. Foto Fernanda Maia
O filme reforça o papel da fotografia como uma ferramenta para capturar a vida, a memória e a dignidade humana. Um de seus maiores méritos é a forma respeitosa como conduz essa homenagem. Em vez de ser sensacionalista ou paternalista, o filme convida o espectador a olhar para as imagens e, mais importante, a escutar as histórias por trás delas. Rostos ganham nomes e os retratos ganham vozes. Dessa forma, os arquivos se tornam vivos, valorizando a memória como um elemento central da identidade coletiva.
Premiado como Melhor Documentário no Africa International Film Festival e com o Prêmio do Público no Pan African Film Festival, o filme também destaca a importância do intercâmbio cultural na diáspora africana. A parceria entre Mwine — com vivência tanto africana quanto ocidental — e Soderbergh, que contribui para dar maior visibilidade ao projeto, mostra que é possível ampliar o alcance de uma história sem diluir sua essência. A obra de Kibaate, apesar de profundamente local, conecta-se a debates globais sobre arte, ancestralidade e memória.
No fim das contas, “O Retorno das Memórias de Amor” é muito mais do que a biografia de um fotógrafo. É um lembrete poderoso de que toda imagem carrega um mundo. Ao cumprir a promessa de divulgar o trabalho de Kibaate, Mwine nos entrega um filme profundamente humano, que valoriza as pequenas histórias que compõem o tecido da nossa existência — e que, graças à fotografia, continuam vivas.



