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O luto sensorial e o ‘catolicismo negro’ de “Ínfimos em um Mundo Esmagador”
Primeiro longa do diretor ruandês Philbert Sharangabo observa o pesar, a fé, a esperança e a memória por outra ótica
Por Victor Conegundes

Foto Fernanda Maia
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O luto pode ser vivenciado de muitas formas e em tempos diferentes, experiências que são absorvidas ao rezar, prantear, se distrair – enquanto mantém a memória viva daqueles que foram. Em “Ínfimos em um Mundo Esmagador”, o primeiro longa-metragem de Philbert Aimé Mbabazi Sharangabo, o luto é uma experiência coletiva e particular. Observamos os íntimos dos personagens que se desnudam em sua fé e esperança de superação.
No filme, Anita (Aline Amike), uma personagem energética e hipnotizante, recebe sua liberdade da cadeia e descobre a morte recente de seu namorado, Serge (Ganza Moise). A personagem, que dança em bares de karaokê de Kigali e tenta transformar sua paixão musical em carreira, se aproxima de Shema (Rwasibo Joe), melhor amigo de Serge, para lidar com o pesar.
O longa é caprichado em detalhes, uma direção de arte muito bem elencada que utiliza todos os cenários em seu máximo sem ser exaustivo. Centrado em personagens jovens que ecoam as ansiedades sobre amor, auto aceitação e orgulho, a narrativa avança de forma pausada, como se desse tempo ao espectador de participar do luto dos personagens.
O olhar para o enquadramento é peculiar. Em vez de focar no lamento ou na violência gráfica, o filme propõe uma meditação poética – e até distante – sobre o luto e a superação. Sua premissa é singular: centrar-se nos momentos “à parte do luto”, aqueles instantes de vida que persistem e que, segundo Sharangabo, reafirmam que a presença da pessoa morta não se desvanece após o enterro. O perfume, as roupas, e outros elementos constituem a presença de Serge, que em um dos momentos mais poéticos do longa, aparece para incentivar Shema a seguir.

Philbert Aimé Mbabazi Sharangabo. Foto Fernanda Maia
As escolhas estéticas já mostram caminhos definidos pelo diretor. Sharangabo conta que é sua marca focar a imagem nos rostos, se dependesse dele “faria um filme inteiro só de closes de rosto”. “Os personagens tem uma vida interna, e é muito difícil traduzir essa vida para o espectador. Às vezes precisamos nos apropriar do surrealismo para mergulhar nos personagens, em seus sonhos e suas próprias dimensões”, complementa o diretor.
O projeto, vale notar, nasceu de forma orgânica, inspirado em um curta anterior e iniciado por pessoas próximas ao diretor que estavam em processos de luto. A Ruanda é um país com feridas recentes – os jovens adultos de hoje são os que nasceram após o Genocídio de Ruanda – então existe um contexto de luto e lamento na própria história recente.
Além disso, as escolhas religiosas na abordagem do filme também chamam atenção. No bate-papo após a exibição na Mostra, a professora Márcia Guerra comentou sobre como achou curioso a exibição do catolicismo no filme e perguntou como é a relação entre a igreja e as demais manifestações de fé de comunidades diferentes em Ruanda. O diretor pontuou que apesar de vir de uma família católica, antes da colonização cristã, as religiões dos povos de Ruanda tinham uma relação diferente com o pós-morte e o processo de partida.
O filme questiona o imaginário cristão ao trazer a alegoria de um “anjo negro” . O diretor provoca o espectador sobre a persistência dos símbolos cristãos serem sempre brancos, propondo uma reimaginação dessas figuras alegóricas em um contexto africano.
Essa discussão ecoa principalmente na figura de Anita, que mesmo enfrentando tantas dificuldades, acredita que está sempre acompanhada de seu anjo da guarda. Sharangabo utiliza esses símbolos para instigar uma conversa complexa sobre a apropriação da fé e a construção de uma espiritualidade que dialogue com a identidade ruandesa contemporânea.



