
O conto de uma comunidade heróica em A Lenda da Rainha Errante de Lagos

O luto sensorial e o ‘catolicismo negro’ de “Ínfimos em um Mundo Esmagador”
Longa “Os Meninos Estão Bem” e sessão de curtas destacam novas vozes do cinema nigeriano
Diretores Abba T. Makama, C.J. Obasi e Arnaud Rwasangabo participaram de sessão especial em bate-papo com o público, celebrando conexões entre Nigéria e Bahia
Por Lorena Conceição

Abba T. Makama, Arnaud Rwasangabo, Ana Camila Esteves e C.j. Obasi. Foto Fernanda Maia
Em mais um dia de programação da Mostra de Cinemas Africanos em Salvador, a Saladearte da UFBA, no bairro do Canela, ofereceu ao público o calor e a descoberta de um novo cinema, em contraste com a chuva e a ventania que atingiram a cidade.
A sessão contou com a exibição do longa Os meninos estão bem, do diretor Abba T. Makama, convidado para um bate-papo com o público, e de sete curtas selecionados em parceria com o S16 Film Festival, representado por Makama e o cineasta C.J. Obasi, além da presença do diretor do curta Ecos do Coração, Arnaud Rwasangabo.
Os meninos estão bem (The Kids Are Ok, 2024)

Uma das cenas do filme, que retrata o protesto pacífico do movimento #EndSARS. Foto: Reprodução/Twitter
Ambientado na Nigéria, o documentário apresenta a cidade de Lagos e sua população, as narrativas de potência e movimentos de resistência em meio a precariedade. O diretor traz em primeira pessoa, diferentes artistas do movimento de contracultura jovem nigeriano conhecido como ALTE.
São múltiplos significados atribuídos pela comunidade nigeriana ao termo ALTE, como “Ser assumidamente quem é” e “Ser fora da norma”. Durante o bate-papo, Abba contou que o movimento não é oficializado em si próprio, não tem uma estrutura ou um modo de interação. “A palavra ALTE era insulto, não aceita na sociedade”, afirma o cineasta.
Entre as impressões deixadas pelo público, Fátima Luiza, recifense, professora do IF Baiano em Serrinha e mestre em cinema, destacou a estética do longa.
“Esteticamente eu gostei muito da fotografia, porque filmes que se passam na África geralmente têm aquela fotografia estereotipada, amarelada, esverdeada. E ele é muito sagaz em trazer cores vivas. Gostei muito também das pessoas entrevistadas, que trouxeram várias perspectivas sobre a cena alternativa nigeriana, que é bem debatida essa questão de ser alternativa ou não. E a trilha sonora, com certeza, é incrível”.
Dara Santos, 29 anos, mineira, mas vivendo atualmente em Salvador, atua na área de pós-produção audiovisual e participa pela terceira vez da MCA. Ela também trouxe sua perspectiva com muita emoção:
“É uma chance de acompanhar, conhecer novos realizadores, aprender sobre novas narrativas e se emocionar. Acho que o cinema africano, no geral, é muito lindo. Acredito que um evento como esse é uma imersão massa tanto para os realizadores que vêm quanto para a gente, que pode estar ali próximo, conversar, tirar dúvidas”
“É como estar em casa”

Fátima Luiza, professora do IF Baiano Serrinha e Mestre em Cinema. Foto Lorena Conceição
O diretor Abba reforçou o elo afetivo entre entre o cinema africano e a capital baiana ao dizer: “ Salvador é como estar em casa”. Esse vínculo também apareceu durante o bate-papo com o público.
“Eu acho que uma das principais conexões é a construção da narrativa nacional da Nigéria, da África do Sul, de Angola e, hoje, do Brasil. Esses países africanos tinham uma coisa em comum, ainda mais difícil, que é a busca dessa identidade nacional. Agora a gente está buscando as identidades dos nichos regionais, como esse filme que vimos”, reforça Fatima Luiza.
Já Dara Santos, contou que o evento é uma oportunidade rara de contato com o cinema africano: “Acho extremamente crucial essa relação da diáspora africana aqui. As questões de negritude e também de gênero ultrapassam fronteiras, o Atlântico. E eu acho muito interessante a forma como eles retratam. Tem filmes que me emocionam muito, de trazer esperança, um pingo de mudança. Ver isso sendo retratado é, para mim, de grande inspiração, tanto como realizadora quanto como admiradora de cinema.”
Sessão de Curtas
A programação também contou com uma seleção de sete curtas-metragens selecionados em parceria com o S16 Film Festival, evento realizado em Lagos e voltado para novas vozes e linguagens no cinema nigeriano.
Nesta sessão estiveram presentes Abba T. Makama e C.j. Obasi, membros fundadores do coletivo Surreal 16 e do S16 Film Festival, e Arnaud Rwasangabo, diretor do curta Ecos do Coração (2024).
As produções trouxeram diversas questões: a fé e a religiosidade em A Esposa de Deus (2024); as memórias do movimento migratório em Partindo de Ikorodu em 1999 (2024) e Deus Te Acompanhe (2023); os jogos narrativos em Enyo/Reflexo (2024); as relações afetivas em Tudo Dura e Nada Termina (2024) e união em Fluid Lagos (2024), além da esperança que atravessa Ecos do Coração (2024).
Segundo Ana Camila Esteves, idealizadora, curadora e diretora da Mostra de Cinemas Africanos, um dos critérios da curadoria foi destacar outras formas de fazer cinema na Nigéria. O público, de maneira geral, manifestou um desejo por mais mostras e coproduções entre Brasil e África. Um dos espectadores resumiu os curtas como “compartilhamento de histórias mais profundas”, enquanto outro afirmou querer voltar à Mostra mais vezes, apontando-a como um espaço de encontros e reconhecimento.
Contente com a repercussão, Abba ainda acrescentou:
“Em 2016 eu fiz um filme chamado Green White Green, que teve sua première no Toronto International Film Festival, e era sobre jovens nigerianos. Era como se eles nunca tivessem visto filmes representando a juventude nigeriana. Eu queria mostrar ao resto do mundo uma parte do continente, as pessoas, sabe? Por anos, a mídia ocidental nos representou através de uma determinada perspectiva, então eu estou fazendo minha parte.”



