
Masterclass com Mamadou Dia destaca roteiro, comunidade e representação no cinema africano

O conto de uma comunidade heróica em A Lenda da Rainha Errante de Lagos
Corrupção e esperança: ecos de um país em “Estrada da Liberdade”
Primeiro longa dirigido por Afolabi Olakkan amarra questões de corrupção política com os impactos na vida das pessoas
por Victor Conegundes

Atriz Meg Otanwa fala em debate pós sessão. Foto Fernanda Maia
Todos os atos têm consequências, e alguns deles apresentam mais efeitos do que se possa imaginar. O longa Estrada da Liberdade (Nigéria, 2024), dirigido pelo cineasta Afolabi Olakkan discute com uma narrativa circular e muito bem elaborada, como os acontecimentos políticos e sociais, movidos por interesses escusos, escalam em concatenações muito sérias e danosas. O filme foi exibido durante a programação da Mostra de Cinemas Africanos 2025 na Saladearte UFBA.
Com roteiro de Blessing Uzzi, o filme tece uma narrativa intrincada em Lagos, na Nigéria, seguindo a jornada de dois jovens desenvolvedores de software, Themba (Jesse Suntele), Tayo (Ogranya Jable) e seu amigo advogado Edi (Mike Afolarin), que pretende se mudar para tentar uma vida sem violentas interrupções e corrupções que assolam o cotidiano da metrópole. A dupla sonha em prosperar com sua startup de aplicativo de caronas para motociclistas, o Easy Go, mas rapidamente se choca com a muralha da corrupção policial e política. A proibição das motocicletas pelo governador, uma medida que interfere diretamente no destino da startup, se entrelaça com o drama de uma família que se depara com a brutalidade policial e as consequências da corrupção, incluindo o destino da família de Abiola (Debo Adedayo), sua esposa Funke (Meg Otanwa) e a filha do casal, Dara (Adebola-Walter Tiwalola).

Roteirista Blessing Uzzi. Foto Fernanda Maia
Durante o bate-papo após a exibição do filme, a roteirista Blessing Uzzi compartilhou que grande parte da história é inspirada em fatos reais da Nigéria, registros que ficaram no imaginário nigeriano e se refletiram em consequências de como lidar com algumas situações – a exemplo do caso de um corpo encontrado na rua e a desconfiança imediata da polícia ou assassinatos cometidos por agentes públicos.
Quando questionada pelo público brasileiro sobre a forte semelhança entre as questões de corrupção e brutalidade policial apresentadas no filme e as vivenciadas no Brasil – “parece que ela estava pensando no nosso país”, como disse uma das ouvintes –, Uzzi foi enfática, apesar de reconhecer a ressonância: “Eu não estava pensando em outro contexto a não ser o nigeriano. Mas essa é a questão. A brutalidade policial e a corrupção não são um problema nigeriano, não é um problema africano, mas um problema mundial,” afirmou.
Para Meg Otanwa, que interpreta a personagem “Funke”, esposa de Abiola, e também estava presente no bate-papo, a construção da personagem foi bem natural para quem nasceu no contexto nigeriano – ela nasceu lá, mas atualmente mora nos Estados Unidos. Os maneirismos e as expressões linguísticas vem principalmente de estudos da tribo Yoruba, e do fato da personagem não ter uma educação formal, algo que apesar de diminuir o poder de Funke, não limita sua importância.
O público se mostrou profundamente tocado pelas nuances do filme. Para Carlos Eduardo, publicitário paulista que acompanha o evento há pelo menos 3 anos, a Mostra tem uma energia diferente em Salvador, uma relação transatlântica e viva, já que o Brasil é um país de maioria negra, e a capital baiana é a cidade mais negra fora da África.



